10 janeiro 2019

Português para Concursos | Interpretação de Textos - Banca CRS-PMMG

Português para Concursos | Interpretação de Textos  - Banca CRS-PMMG



A mulher do vizinho  

Contaram-me que na rua onde mora (ou morava) um conhecido e antipático general de nosso Exército morava (ou mora) também um sueco cujos filhos passavam o dia jogando futebol com bola de meia. Ora, às vezes acontecia cair a bola no carro do general e um dia o general acabou perdendo a paciência, pediu ao delegado do bairro para dar um jeito nos filhos do sueco.
O delegado resolveu passar uma chamada no homem, e intimou-o a comparecer à delegacia. 
O sueco era tímido, meio descuidado no vestir e pelo aspecto não parecia ser um importante industrial, dono de grande fabrica de papel (ou coisa parecida), que realmente ele era. Obedecendo a ordem recebida, compareceu em companhia da mulher à delegacia e ouviu calado tudo o que o delegado tinha a dizer-lhe. O delegado tinha a dizer-lhe o seguinte: 


— O senhor pensa que só porque o deixaram morar neste país pode logo ir fazendo o que quer? Nunca ouviu falar numa coisa chamada AUTORIDADES CONSTITUÍDAS? Não sabe que tem de conhecer as leis do país? Não sabe que existe uma coisa chamada EXÉRCITO BRASILEIRO que o senhor tem de respeitar? Que negócio é este? Então é ir chegando assim sem mais nem menos e fazendo o que bem entende, como se isso aqui fosse casa da sogra? Eu ensino o senhor a cumprir a lei, ali no duro: dura lex! Seus filhos são uns moleques e outra vez que eu souber que andaram incomodando o general, vai tudo em cana. Morou? Sei como tratar gringos feito o senhor. 
Tudo isso com voz pausada, reclinado para trás, sob o olhar de aprovação do escrivão a um canto. O sueco pediu (com delicadeza) licença para se retirar. Foi então que a mulher do sueco interveio:
—Era tudo que o senhor tinha a dizer a meu marido?
O delegado apenas olhou-a espantado com o atrevimento.  
— Pois então fique sabendo que eu também sei tratar tipos como o senhor. Meu marido não e gringo nem meus filhos são moleques. Se por acaso incomodaram o general ele que viesse falar comigo, pois o senhor também está nos incomodando. E fique sabendo que sou brasileira, sou prima de um major do Exército, sobrinha de um coronel, E FILHA DE UM GENERAL! Morou? 
Estarrecido, o delegado só teve forças para engolir em seco e balbuciar humildemente:
— Da ativa, minha senhora?
E ante a confirmação, voltou-se para o escrivão, erguendo os braços desalentado:
— Da ativa, Motinha! Sai dessa...  

                              Texto extraído do livro "Fernando Sabino - Obra Reunida - Vol.01", 
                                                           editora Nova Aguiar - Rio de Janeiro, 1996, pág. 872.


Questão 01. 

Considerando que as expressões “casa da sogra" e “vai tudo em cana", bem como as palavras “moleques", “morou" e “gringos" estão presentes no texto em contexto que marcam uma época, marque a alternativa CORRETA em relação ao uso dessas expressões e palavras no texto e em contexto diverso do texto:

A. A palavra “morou" não foi utilizada no texto como gíria para alcançar o sentido que emerge da palavra entendeu e será sempre vista como gíria se utilizada em outro contexto.

B. As palavras “gringos" e “moleques" não podem ser consideradas no texto como uma forma pejorativa de se referir ao sueco e aos filhos dele. Mesmo em outro contexto de uso, essas palavras jamais serão consideradas como gíria ou algo pejorativo.

C. A expressão “casa da sogra" foi utilizada no texto como gíria para se referir a ambientes desprovidos de regras, mas pode ser utilizada em outro contexto em seu sentido literal.

D. A expressão “vai tudo em cana", não remete ao ato de prender alguém e possui um sentido literal que pode ser utilizado em outro contexto.

Questão 02.  

Escolha a alternativa CORRETA que apresenta um exemplo de verbo defectivo:

A. Cantar.
B. Abolir.
C. Dizer.
D. Guiar. 

Questão 03.  

Leia o fragmento extraído do conto O MINEIRINHO, de Clarice Lispector, e marque a alternativa CORRETA: 

“É, suponho que é em mim, como um dos representantes do nós, que devo procurar por que está doendo a morte de um facínora” 

Qual é a função sintática do termo destacado em negrito?

A. Adjunto Adverbial.
B. Adjunto Adnominal.
C. Aposto.
D. Vocativo. 


Questão 04.

 Marque a alternativa cujo sinal indicativo de crase seja OBRIGATÓRIO, preenchendo CORRETAMENTE a lacuna:

A. A coordenação do parque decidiu fechá-lo ___ visitas.
B. Tomou a medicação gota ___ gota.
C. Não me referi ___ Vossa Eminência.
D. Não estou falando de todas as mulheres; refiro-me ___ que você ama. 

Questão 05. 

Leia o excerto abaixo e marque a alternativa CORRETA. 

“O romantismo, embora a gente não o veja sempre assim, é uma forma exacerbada de egoísmo”. 

A classificação MORFOLÓGICA dos termos sublinhados é RESPECTIVAMENTE:

A. Conjunção coordenada concessiva, artigo definido, substantivo.
B. Conjunção subordinada concessiva, pronome oblíquo, adjetivo.
C. Conjunção coordenada adversativa, pronome oblíquo, substantivo.
D. Conjunção subordinada concessiva, artigo definido, adjetivo.



Diário de um fescenino 
                                                          Rubem Fonseca 
1º. de janeiro 
Decidi, neste primeiro dia do ano, escrever um diário. Não sei que razões me levaram a isso. Sempre me interessei pelos diários dos outros, mas nunca pensei em escrever um. Talvez depois de considerá-lo terminado quando?, que dia? - eu o rasgue, como fiz com um romance epistolar, ou o deixe na gaveta, para, depois de morto, os outros - nem sei quem serão, pois não tenho herdeiros - resolverem o que fazer com ele. Ou, então, pode ser que eu o publique.
"O bom diarista", disse Virginia Woolf, "é aquele que escreve para si apenas ou para uma posteridade tão distante que pode sem risco ouvir qualquer segredo e corretamente avaliar cada motivo. Para esse público não há necessidade de afetação ou restrição." Não me imporei restrições, porém sei que estarei sendo influenciado de várias maneiras, ao considerar a hipótese de ser lido pelos meus contemporâneos. Os autores de diários, qualquer que seja sua natureza íntima ou anedótica, sempre escrevem para serem lidos, mesmo quando fingem que ele é secreto. O Samuel Pepys, que codificou o seu diário, deixou pistas para ser decifrado. 
Nesse gênero literário, o autor fala sozinho numa, espécie de solilóquio. Aqui, porém, não apenas a minha voz, a do protagonista, será ouvida, mas também as dos outros, deuteragonistas e tritagonistas. (Podem me chamar de pedante, mas que nomes posso atribuir a esses outros, a partir do momento em que me denominei protagonista?) Confesso que, ao realizar essa tarefa, pretendo me exercitar na técnica de escrever em forma dialogada. Há escritores, talvez eu seja um deles, que têm um certo preconceito contra o uso freqüente de falas para descrever interações entre dois ou mais personagens. O teatro não pode prescindir do diálogo e o cinema pode contar alguma coisa sem usar diálogos graças ao close e outros truques de câmera, no entanto o que o cinema pode nos dizer com imagens nunca tem a mesma riqueza de significados da narrativa literária. Acho que fiz todos os meus livros de ficção sem diálogos por não os ter usado no primeiro que escrevi, que fez aquele sucesso todo. Tentei repetir o mesmo formato. Mas aqui pretendo contar o que acontece usando diálogos. Tentarei reproduzir fielmente as expressões verbais de meus interlocutores. Ao fim do dia, após digitar os diálogos junto com uma descrição sucinta do cenário e das circunstâncias em que eles ocorreram, arquivarei tudo na memória do meu computador. Talvez escapem gestos ou falas importantes, elipses estas que resultarão de preguiça e algum desleixo; e, por outro lado, é provável que eu inclua ações e alocuções inúteis. 
Os verbetes referentes a diários, journals e similares enchem várias páginas de qualquer enciclopédia. Os limites classificatórios desses textos são vagos. Numa firula taxinômica eu diria que não podem ser considerados diários, como muitos o fazem, o A JournalofthePlagueYear, do Defoe, ou o Diário de um sedutor, do SorenKierkegaard, que mais me parece um romance epistolar, assim como as Confissões, de Santo Agostinho, ou as Confissões de um comedor de ópio, do de Quincey, que devem ser rotulados como literatura confessional. Quatro exemplos apenas, em uma miríade possível. 

Texto extraído do livro “Diário de um fescenino”, Cia. das Letras - Rio de Janeiro, 2003, pág. 11. 


Questão 06. 

Quanto à concordância nominal, marque a alternativa CORRETA.

A. As provas não foram bastantes para inocentá-lo.
B. Com as manifestações populares, tivemos dias bastantes trabalhosos.
C. As provas não foram bastante para inocentá-lo.
D. Os obstáculos não foram bastante para desanimá-lo. 

Questão 07. 

Quanto ao uso de pronomes, marque a alternativa em que o pronome SE corresponde à partícula apassivadora.

A. Instituição bicentenária, a Polícia Militar reputa-se forte pela sua hierarquia e disciplina.
B. Caminha-se, em Minas Gerais, para a construção de um Estado seguro, onde a paz social já é um objetivo conquistado.
C. Conquistar grandes objetivos só depende de você, mexa-se.
D. Nota-se que novas técnicas de abordagem foram desenvolvidas pela Polícia Militar. 


Questão 08.


De acordo com o texto, marque nas assertivas abaixo, “V” para as verdadeiras e “F” para as falsas. Em seguida, marque a alternativa que contém a sequência de respostas CORRETA, na ordem de cima para baixo:

( ) O teatro não pode abrir mão do diálogo.
( ) As imagens produzidas pelo cinema possuem a mesma riqueza de significados presentes na narrativa literária. 

( ) O cinema não pode substituir o diálogo pela imagem para contar uma história. 

( ) As imagens produzidas pelo cinema não possuem a mesma riqueza de significados presentes na narrativa literária.

A. F, V, V, V.
B. V, F, V, V.
C. V, F, F, V.
D. V, V, V, F. 


Questão 09. 

Com relação ao papel a ser desempenhado pelos denominados deuteragonistas, é CORRETO afirmar que:

A. Refere-se à quarta personagem de papel mais importante na história.
B. Refere-se à personagem de papel secundário na história.
C. Refere-se à personagem de papel principal na história.
D. Refere-se à terceira personagem de papel mais importante na história. 


Questão 10. 


De acordo com o texto é CORRETO afirmar que na concepção de Virginia Woolf “o bom diarista” seria quem:

A. Escreve a história com fingimento ou limitação.
B. Escreve a história sem fingimento ou limitação.
C. Escreve a história sem fingimento e com limitação.
D. Escreve a história com fingimento e sem limitação. 


Português para Concursos | Interpretação de Textos  - Banca CRS-PMMG

Gabarito 

1. C

2. B

3. C

4. D

5. B

6. A

7. D

8. C

9. B

10. B






Um Abraço e Até a Próxima Aula.
Profª. Eliane Vieira

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